A
língua portuguesa original trazida para o Brasil continha
140 mil verbetes ou palavras. O português, esta "língua
de marinheiro", contém hoje 260 mil verbetes,
fato que o torna a mais rica língua em sinonímica
do mundo. Os 120 mil verbetes excedentes em nosso idioma falado,
ficam por conta das culturas africanas e tupi-guarani. Portanto,
a tão alardeada "unificação ortográfica
e gramatical" torna-se impossível a partir da
própria conseqüência lingüística
que este idioma adquiriu no Brasil. Isto porque, o significado
de milhares de palavras oriundas da língua tupi e falados
diariamente, são completamente desconhecidos por todos
indistintamente. Isto sem mencionarmos obviamente, a contribuição
lingüística africana.
As
três línguas que formam o idioma brasílico
têm um sentido e uma objetividade declaradamente importante:
O africano nos deu verbetes com os quais nos expressamos na
forma espiritual, culinária, lazer, gíria e
glotologias – Ex: Bunda, Xodó, Bizú, Gogó,
Tijolo, Zureta, Muvuca, Mumunha, Maluco, Garfo e por aí
vai aos milhares também. O Tupi nos deu verbetes que
nos permitem ir e vir no real sentido locativo e toponímico.
O Português nos deu verbetes que nos fornecem condições
jurídicas, políticas e didáticas. Tornar-se-ia
impossível a um brasileiro fazer tudo que faz diariamente
usando apenas o recurso da língua portuguesa. Daí
que....
É
IMPOSSÍVEL UMA UNIFICAÇÃO ORTOGRÁFICA
COM OS DEMAIS PAÍSES DE
"LÍNGUA
PORTUGUESA"!
Corrigir
a injustiça histórica secular para com a cultura
ameríndia brasílica, origem da formação
nacional e espírito latente de insubmissão à
dominação estrangeira, deve ser o objetivo de
todos aqueles que lidam com a Educação e Cultura
deste país e que tenham um pouco de amor ao verde e
amarelo. Devemos propiciar aos milhões de brasileiros
que diariamente expressam-se na língua tupi, a oportunidade
de saberem o significado dessas palavras e, sabendo-o, terem
condições de conhecer a história da grande
nação Tupi, fato que gerará o inevitável
espírito nacionalista e a responsabilidade em sua preservação.
A conseqüência imediata desta providência
será a expansão para além das nossas
fronteiras da verdadeira epopéia da estruturação
brasileira, permitindo ainda que as demais nações,
por intermédio dos milhares de turistas que pisam o
território nacional, saibam, em seu próprio
idioma, o significado dos nomes e palavras tão comuns
nos logradouros públicos, locais e cidades mundialmente
famosas, e, cujos nomes em língua Tupi, até
a presente data, não têm tradução
literal e significação, uma vez que os próprios
brasileiros não o sabem. E apenas para informação,
longe de ser alguma língua morta e sem origem, o tupi
ou nhengatú possui uma gramática expositiva
dividida em quatro partes exatamente como a língua
portuguesa: Fonologia – Morfologia – Taxinomia
e Sintaxe.
Estamos
diante, portanto, de uma prova que os milhares de nomes toponímicos
que descrevem e definem lugares, cidades, praças, ruas,
produtos, objetos ou fenômenos da terra, não
foram jogados ao vento "por um caboclo brejeiro qualquer"
como quer a explicação até hoje passada
nas escolas do país, mas sim, fazem parte do aspecto
topográfico local, traduzido pelo idioma brasílico,
genuíno irmão lingüístico do português.
Se observarmos apenas algumas das palavras que falamos diariamente,
já teremos uma pequena idéia da nossa ignorância
e a conseqüente responsabilidade para com o futuro: Jacarepaguá,
é Lago do Jacaré – Andaraí, é
Água do morcego – Aracaju, é Tempo de
Caju – Tijuca, é barro mola - Pará, é
mar – Paraná, é rio afluente – Paraguai,
é rio do papagaio – Paraíba, é
rio ruivo ou encachoeirado - Pirapora, é peixe que
salta – Pindorama, é país das palmeiras
– Sergipe, é rio dos siris – Goiás,
é gente da mesma raça – Piratininga, é
seca peixe – Curitiba, é barro branco –
Mogi-Mirim, é riacho das cobras – Carioca, é
casa de branco – Anhangabaú, é buraco
do diabo e Ipanema, é água suja.
Estas
são apenas algumas das milhares de palavras do idioma
tupi faladas e escritas diariamente e que, identificando locais
e cidades nacional e internacionalmente conhecidas, fazem
parte do nosso vocabulário diário, porém
as suas traduções ou significados são
desconhecidos por todos. Os padres jesuítas José
de Anchieta e Nóbrega dedicaram suas vidas aos estudos
e codificação da língua tupi-guarani,
seus usos, costumes, história e origem antropológica
desta grande nação cujo sangue corre em nossas
veias, direta ou indiretamente. Centenas de outros jesuítas
sucederam aos pioneiros na continuidade deste trabalho, legando-nos
verdadeiros tratados acerca de tal assunto, vez que, já
àquela época, previam a necessidade das futuras
gerações acerca do conhecimento da língua
brasílica que faria parte da nossa existência
como nação. Mas a leviandade, o preconceito
e o racismo de alguns "intelectualóides de beira
de jardim" que se revezaram durante anos no controle
da educação e cultura, desprezaria por completo
o trabalho destes jesuítas, preferindo dar cunho oficial
aos anglicanismos, galicismos e estrangeirismos que corroem
o nosso idioma e alteram o nosso comportamento.
De
tal maneira desafiaram o conceito de nação que
hoje, nas faculdades, ninguém sabe gramática
portuguesa e muito menos gramática tupi-guarani. E
só para exemplificar aí vai um texto que prova
a importância da cultura indígena na nossa vida:
"Aí,
o presidente Fernando Henrique Cardoso saiu do palácio
às margens do Lago do Paranoá, observou uma
Siriema que ciscava no palácio do Jaburu, chegou ao
seu gabinete sendo recebido pelo mordomo Peri, lembrou a um
assessor sobre as comemorações da Batalha do
Humaitá, convocou o ministro do Itamaraty e o governador
do Goiás, que visitava seu colega no palácio
do Buriti, e, uma vez juntos, tomaram um suco de Maracujá,
comentaram sobre as reformas do estádio do Maracanã
e as recentes obras no vale do Anhangabaú, riram de
um antigo comentário do Barão de Itararé
sobre obras públicas, e, abrindo uma agenda de pele
de Jacaré, passaram, a decidir sobre o carvão
de Criciúma, os suínos de Chapecó e a
safra de arroz de Unaí." – Viram, falaram,
beberam e escreveram em tupi e não se aperceberam disto.
O embaraço maior, seria se tivessem que traduzir todas
estas palavras para o chanceler francês que visitava
o Brasil.
E
já que é assim, por que não inserir em
todas as placas de ruas, praças, avenidas, estradas,
rodovias, monumentos e locais cujos nomes sejam originalmente
em língua tupi, o significado em português, o
qual, via de regra, poderá ser traduzido para qualquer
idioma estrangeiro ? - E por que não explicar nas escolas
primárias e secundárias esta fusão da
língua portuguesa com a língua tupi-guarani
e seus fenômenos toponímicos e gramaticais usados
no cotidiano desde a tenra idade ? – Achamos esta saída
ideal para um problema que tem gerado situações
embaraçosas para brasileiros no exterior, quando alguém
pergunta o significado da palavra Ipanema ou, dentro do seu
próprio país, quando um filho ou uma filha pergunta:
"...papai, o que quer dizer Carioca ?" – Diante
do desconhecimento total por parte dos brasileiros acerca
desta cultura e herança, corremos os risco de permitir
que as gerações futuras pensem que tais palavras,
hábitos e costumes, fazem parte da cultura e língua
portuguesa, porém, sem significado e explicação.
É o máximo !
E,
caso algum especialista em educação e cultura
ache que é possível viver sem esta influência
lingüística, poderá começar por
retirar todas as palavras da língua tupi do nosso vocabulário.
Inicialmente, terá que trocar o nome de dez estados
e sete capitais brasileiras, cujos nomes são em tupi.
Depois trocar os nomes de centenas de municípios, milhões
de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias e localidades
topográficas cujos nomes também são originários
da língua tupi. E finalmente, terá que mudar
milhares de nomes próprios e palavras comuns do nosso
dia-a-dia, as quais são verbetes da língua tupi.
Aí verá que a comunicação e a
locomoção tornar-se-ão impossíveis.
E
já que esta terra era propriedade de uma raça
tão importante que mesmo dizimada nos legou um tratado
lingüístico e antropológico de beleza impar,
nada melhor do que repetir a célebre frase de Aimberê,
o cacique-comandante da Confederação dos Tamoios
no Rio de Janeiro: "Nhandê Coive Ore Retama!"
– Esta terra, é nossa ! - E é, por esta
razão que me considero um legítimo Tupinambá...porque
no Brasil, TODO DIA, É DIA DE ÍNDIO !
Eduardo
Fonseca – Jornalista e Escritor