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A Descoberta
Meu
envolvimento com a problemática do Linguado é
antigo e meu interesse nessa questão é grande.
Desde minha infância, quando passava temporadas na Barra
do Sul na pequena casa de veraneio que meu avô possuía
lá. Isso a partir de 1969 quando tinha 11 anos. Mais
tarde passei a freqüentar toda a área da Baía
da Babitonga, como explorador e por lazer, coisa que faço
até hoje.
Na
Barra do Sul eu e um amigo tínhamos canoas. Uma delas
era uma pequena bateira de madeira que demos o nome de “Apolo”,
em homenagem à Apolo 11, nave americana que dizem,
chegou a lua naquele ano. A outra maior, era uma canoa motorizada
ou mais freqüentemente movida a remo, chamada “Eva”.
Esta tinha um motor de popa americano de 4½ HP, marca
Clinton Outboard, fabricado pela empresa Clinton Engines Co.,
de Maquoketa, no estado de Iowa. Esse motor pintado em duas
tonalidades de azul era muito estranho, refrigerado a ar.
Era muito ruim também, pois como não havia peças
sobressalentes para ele no Brasil, os mecânicos marreteiros
faziam adaptações, que nem sempre produziam
os resultados esperados. Quando esse motor afogava era praticamente
impossível faze-lo pegar. Tinha problemas de umidade
no platinado e em todo sistema elétrico. Nossos braços
ficavam doloridos de tanto puxar aquela cordinha do arranque,
de maneira que muitas vezes éramos obrigados a desistir
do motor e maltratar nossos braços com os remos ao
invés do arranque. Não posso imaginar como um
povo que fabrica um motor que nem aquele Clinton, tenha capacidade
para chegar à lua.
Íamos
com essas canoas pela ”lagoa” da Barra do Sul
até o Linguado, pois julgávamos que lá
devia dar mais peixes. Na verdade o que as pessoas chamam
hoje de lagoa, é o que foi o braço de mar que
passava por detrás da Ilha de São Francisco.
Com o fechamento do canal na Ilha do Linguado aquela extensão
de água se transformou numa laguna. Nesse ponto, ficava
eu muito impressionado com a diferença de nível
das águas nos dois lados do aterro, que chegava a mais
de um metro. Aqui, que a partir de 1969, comecei a tomar conhecimento
da problemática advinda com o fechamento do canal.
Na
praia de Barra do Sul, em frente à Ilha dos Remédios,
naquele tempo observavam-se ruínas de várias
casas que haviam desabado pelo avanço do mar, causando
erosão na praia. Havia uma grande casa parcialmente
em pé ainda, mas com a parte da frente totalmente destruída,
que diziam ter sido de um bispo. As explicações
que davam era de que todo o litoral norte de Santa Catarina
estava sofrendo grandes modificações e que o
grande problema, a causa de tudo, era o canal do Linguado
que se havia fechado. Exageraram certamente os meus informantes,
e eu também imaginei num primeiro momento que esse
fechamento tivesse sido coisa recente. Ninguém sabia
me dizer, assim de chofre, quando efetivamente se dera esse
fechamento. Só muito tempo mais tarde é que
pude reconstituir a história desse episódio
e avaliar melhor sua real extensão. Embora houvesse
exagero por parte de alguns, a situação em si
era – e continua – extremamente grave.
A
Estrada de Ferro – Ramal São Francisco
A concessão para a construção de uma
estrada de ferro integrando os três estados do sul do
Brasil, a futura Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande
- EFSPRG; foi obtida pelo engenheiro Teixeira Soares, em novembro
de 1889. Deveria ligar Itararé SP à Sta. Maria
RS. Já na concessão original se previam dois
ramais laterais, um para Guarapuava PR e outro que buscasse
algum porto no estado de Santa Catarina a ser definido.
Em
Santa Catarina, como primeiro ato do governo estadual republicano,
foi sancionado o Decreto Nº 1, de 22 de janeiro de 1890,
em que o também primeiro governador do Estado de Santa
Catarina, Lauro Muller, concede o privilégio a Carlos
G. da Costa Wigg, do Rio de Janeiro, para a construção
de uma estrada de ferro que, partindo de Rio Negro, no Estado
do Paraná, atravessaria a Serra Geral [SIC –
é do Mar], passando por Joinville, em busca de um porto
na baía de São Francisco, em local a ser determinado
nos estudos preliminares. Esse projeto não evoluiu,
por motivos políticos e administrativos diversos. Carlos
da Costa Wigg era brasileiro, ligado à negócios
na área mineral como sócio comanditário
da primeira usina para produção de ferro gusa
do Brasil, a Usina Esperança, em Itabira MG.
A
nível federal só em 1901 foi concedida uma licença
de construção de um ramal com traçado
nestas condições, que hoje é conhecido
como Ramal São Francisco. No ano 1903, sob comando
do Dr. Francisco Leite Ribeiro, uma comissão de engenheiros
e agrimensores iniciou o levantamento topográfico detalhado
da linha. O primeiro estudo de traçado, cujo levantamento
era do final do século XIX e que acompanhava o ato
legal da licença de construção, não
previa a passagem pela cidade de Joinville, o que mobilizou
freneticamente todas as forças políticas locais
junto aos governos estadual e federal para modificar isso.
O novo estudo apresentado pela comissão liderada pelo
Dr. Leite Ribeiro agora incluía Joinville no traçado.
Em janeiro de 1905 iniciaram-se os serviços de terraplenagem
entre São Francisco e Joinville onde grandes problemas
técnicos de engenharia imediatamente se apresentaram,
entre os quais o Canal do Linguado e o Banhado do Piraí-Piranga,
próximo a Joinville em direção ao interior.
Em julho deste mesmo ano, 1905, chegam em São Francisco
2.300 trilhos e 4.600 talas de junção provenientes
da siderúrgica Coqueril Belgique, de Liège,
na Bélgica. O motivo desse material vir da Bélgica
é que um dos principais sócios, juntamente com
Percival Farquhar, da Brazil Railway Co. que passou a controlar
a EFSPRG, era um grande banqueiro belga chamado Hector Legrû,
que também tinha interesses naquela aciaria. Além
disso, o seu banco, Banque de Paris et des Pays Bas, era um
dos principais financiadores da ferrovia. Esse material belga
chegou no cargueiro a vapor “Karthago”. Outro
navio, o “Guayba”, trouxe duas pequenas locomotivas
e outros equipamentos que também vinham da Bélgica,
pois o porto de origem dessa carga era Antuerp.
A
ponte ferroviária - Histórico
O problema de engenharia de maior complexidade dessa primeira
fase litorânea da ferrovia foi sem duvida a transposição
dos dois canais na Ilha do Linguado. Decidiu-se por aterrar
um dos canais e construir uma ponte no outro. Entre a ilha
de São Francisco e a ilha do Linguado, o canal hoje
chamado norte foi aterrado imediatamente em todos seus 800
metros de largura. Foram registrados o uso de 8.000 m³
de pedras nessa parte do aterro, naquela ocasião. No
outro canal foram construídas duas pontes entre o continente
e a ilha do Linguado. A primeira ponte era provisória
e cruzava o canal, chamado sul, em toda sua extensão
transversal, que era de 400 metros. Foi iniciada em 1905 e
era estruturada sobre 60 pilastras de perfil metálico.
Estas pilastras tinham 11 metros de comprimento e foram batidas
no fundo do canal em profundidades que iam de 3 a 5 metros
conforme a resistência do solo. Para isso utilizou-se
um bate-estacas mecânico a vapor que tinha um martelo
de 1200 Kg e dava 4 batidas por minuto.
Aquela
primeira ponte era bem precária, sendo usada com muita
cautela. Em junho de 1906 os homens conseguiram, com grandes
dificuldades, atravessar para o continente uma das locomotivas
que estavam na ilha de São Francisco desde o ano anterior.
Era a menor das duas. Tinham agora uma locomotiva em cada
lado do canal. Fizeram uma inauguração simbólica
da linha em agosto de 1906, na cidade de Joinville, contando
com a presença do presidente eleito do Brasil, Dr.
Affonso Pena, embora a linha não entrasse em operação
regular antes de 1910. O transporte eventual que se fazia
no tempo da primeira ponte muitas vezes era baldeado por pequenos
carris, mais leves, para não sobrecarregar a mesma.
A
segunda ponte também metálica, inaugurada em
1909/1910, foi fornecida pré-montada da Europa, provavelmente
também da Bélgica, com vigas de perfilados da
mesma siderúrgica Coqueril Belgique, de Liège.
A ponte tinha o comprimento total de 120 m, divididos em três
tramos de 40 m, sendo os dois das extremidades fixos e o central
móvel giratório para permitir a passagem de
embarcações maiores pelo canal. As vigas são
em treliça de banzos paralelos com múltiplas
diagonais nos dois sentidos, com montantes transversais. A
superestrutura começou a ser montada em 1906, tendo
sido usados guindastes a vapor funcionando sobre os trilhos.
Nas obras destas pontes trabalhavam simultaneamente, entre
1905 e 1910, cerca de 160 homens sob o comando operacional
de um alemão chamado Augusto Klimmek, que muitos anos
mais tarde viria a se estabelecer em São Bento, montando
um fábrica de escovas, pinceis e vassouras.
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O
grau de agressividade com que as correntes de maré
atacaram o fundo e as margens do canal, depois que foi estreitado
de 400 para 120 metros, para a construção da
segunda ponte, é uma variável que só
nos é permitido conjecturar. Não parece provável
que existissem muitos pontos com profundidade maior de 6 metros
no princípio, pois para a construção
da primeira ponte provisória os registros indicam estacas
feitas com vigas de ferro de 11 metros de comprimentos, com
3 a 4 metros engastados no fundo. Por certo, depois de estreitado
para 120 metros de largura – que corresponde a 10% da
largura original se considerarmos os dois canais – a
velocidade da corrente aumentou enormemente. Quando foi aterrado
em 1935, se conservaram relatos de existiam alguns pontos
com 25 metros de profundidade.
O
Aterro - fechamento do canal
Finalmente na década de 1930 a ponte do Linguado está
em situação precaríssima. A companhia
ferroviária concessionária dos serviços,
que agora ninguém mais sabe exatamente a quem pertence,
passa a reivindicar insistentemente autorização
para aterrar todo o canal.
A
obra foi por fim autorizada, após demorados estudos
de viabilidade técnica e pareceres do Ministérios
da Viação e Obras Públicas e Marinha.
O aterramento teve início em abril de 1934 sob a supervisão
dos engenheiros Bernardo Schmidlin e Arlindo de Barros.
O
trabalho de desmontagem da ponte começou logo que o
primeiro vão ficou aterrado, o que aconteceu no dia
25 de agosto de 1935. Os dois vãos restantes foram
retirados, um a 1º de setembro de 1935, e o outro a 27
do mesmo mês. Em 21 de outubro de 1935, o aterro do
canal sul acabou sendo festivamente inaugurado quando uma
composição ferroviária passou pelo aterro
em velocidade “normal”. Para a conclusão
da obra foram necessários 18 meses do trabalho de 400
homens, que colocaram ali cerca de 60.000 metros cúbicos
de pedras de acordo com registros da época. Esta estimativa
é passível de confirmação ainda
hoje, pela cava deixada na pedreira de onde foi retirado todo
o material para o aterro.
Ainda
na época em que se procedeu ao fechamento do canal
já havia vozes dissonantes quanto a conveniência
do fechamento total do mesmo. Havia já um temor quanto
às mudanças das condições naturais
que poderiam ocorrer na baía. Diz-se que o próprio
engenheiro Bernardo Schmidlin, um dos responsáveis
técnicos pelas obras do aterro, mostrou-se reticente
quanto a sua construção daquela forma. Mas,
isolado em sua opinião, não pode evitar aquele
modelo. Teria proposto então que o aterro fosse atravessado
por tubos que permitiriam a circulação parcial
das águas. Também não foi autorizado
a assim proceder, pois certamente haveria aumento de custos,
além de ser uma solução paliativa que
poderia criar outros problemas.
As
Conseqüências
O
aterro do canal foi jubilosamente saudado pela população
de São Francisco como a solução para
todos os seus problemas de comunicação com o
resto do país. Mesmo em Joinville as forças
progressistas se mostraram muito satisfeitas com a solução
como atestam as manifestações da imprensa na
época. Só se consideraram os aspectos logístico-estratégicos,
pois preocupações ambientais não passavam
pelo ideário de quase ninguém naquele tempo.
De
qualquer forma, as implicações que esta medida
iria acarretar na característica ambiental marítima
da baia – físicas e bióticas – não
se manifestaram de imediato. São modificações
lentas, silenciosas. Três décadas foram necessárias
para que a população começasse a tomar
consciência das reais conseqüências que aquela
obra veio a ocasionar em todo o complexo estuarino da baía.
Só na década de 1960 é que os problemas
começaram a se manifestar de forma mais clara. Foi
exatamente na época que também passei a participar
desse acalorado debate, por causa do desabamento da casa do
bispo e do motor Clinton.
Com
a interrupção do fluxo livre da maré
pelo canal sul da baía, toda a hidrodinâmica
da mesma se modificou muito, pois o sistema de circulação
da água foi totalmente alterado. Dessa forma, todo
o complexo estuarino vem sofrendo estresse de toda ordem,
com uma significativa diminuição na sua profundidade
e aumento dos bancos de areia em outras áreas. A primeira
conseqüência disso foi o assoreamento de diversos
pontos da Baía, cujo processo inicial se deu junto
ao próprio aterro quase que imediatamente.
Com
o estreitamento do canal para a construção da
segunda ponte em 1907, o mesmo sofreu modificações
de perfil que hoje só pode ser objeto de cogitações.
Antes do fechamento definitivo pelo aterro o canal apresentava
pontos com mais de 20 metros de profundidade, segundo depoimentos
de moradores da época e como já vimos acima.
Atualmente, a porção do canal voltada para a
Baía formou-se um imenso banco de lodo (vazas), uma
área que fica totalmente exposta na maré baixa.
Durante os 70 anos em que o Canal está fechado, foi
intenso o processo de assoreamento. |